
O rompimento entre a ex-prefeita Tainá Veiga e a atual prefeita Edilza não representa apenas um desgaste administrativo ou uma divergência pessoal. O episódio tem potencial para produzir efeitos profundos no tabuleiro político de Lagoa da Canoa e, desde já, antecipa os movimentos da disputa municipal de 2028.
A separação entre duas lideranças que estiveram unidas para derrotar Jairzinho Lira na eleição de 2024 mexe diretamente com a lógica que sustentou aquela vitória. Afinal, o triunfo do grupo governista não foi construído apenas pela força individual de um nome, mas pela soma de capital político, alianças e transferência de votos.

Quando essa unidade se rompe, abre-se uma fissura no bloco vencedor.
E é justamente nesse tipo de cenário que adversários derrotados costumam voltar ao jogo.
Jair Lira, que parecia politicamente enfraquecido após o último pleito, passa a surgir como possível beneficiário direto da crise. Isso porque, em política, divisões internas frequentemente produzem um fenômeno clássico: a reabilitação do adversário.
Se Tainá e Edilza transformarem divergências em confronto aberto, a tendência é de fragmentação do grupo que hoje governa o município. E uma base rachada costuma gerar três efeitos imediatos:
Primeiro, divide eleitores que antes estavam concentrados em um único projeto político.
Segundo, desgasta a imagem do grupo perante a opinião pública, especialmente quando o embate sai do campo interno e ganha as ruas.
Terceiro, abre espaço para que uma liderança de oposição se apresente como alternativa de estabilidade.
É exatamente nesse terceiro ponto que Jair Lira cresce.
O ex-prefeito pode deixar de ser visto apenas como nome do passado para se apresentar como opção viável diante de um grupo que demonstra sinais de implosão.
Mais do que isso: o rompimento antecipa a eleição de 2028.
Embora faltem anos para o próximo pleito municipal, a disputa já começa a ser desenhada agora. Isso porque rupturas raramente são apenas administrativas; elas costumam carregar projetos de poder.
Se Tainá rompe, dificilmente o gesto é neutro.
Ou há divergência sobre gestão, ou há divergência sobre sucessão.
E nos dois casos, o pano de fundo é político.
O fenômeno que se desenha em Lagoa da Canoa não é novo na política brasileira: grupos que vencem unidos, quando se dividem no poder, muitas vezes pavimentam o retorno daqueles que derrotaram.
Foi assim em diversos municípios.
Pode ser assim novamente.
No fim, o maior paradoxo do rompimento é este: as mesmas lideranças que se uniram para derrotar Jair Lira podem, agora separadas, criar as condições para seu fortalecimento.
Se a crise se aprofundar, o maior cabo eleitoral de Jair Lira pode não ser seu discurso de oposição.
Pode ser o conflito entre suas adversárias
Por: Aloysio Santos