
Na política de Arapiraca há movimentos que surpreendem e há aqueles que apenas confirmam um estilo. O recente gesto da ex-prefeita Célia Rocha, ao declarar apoio ao ex-prefeito de Maceió, JHC, parece se encaixar perfeitamente na segunda categoria.
Nada de silêncio estratégico ou neutralidade calculada. Célia foi direta, como costuma ser: disse que vota em JHC “de verdade e de coração”. Em tempos de frases ensaiadas e discursos cheios de vírgulas, a objetividade soa quase como um ato de rebeldia.
Do outro lado, JHC segue fiel ao script do suspense. Não confirma candidatura ao governo, não descarta, não fecha portas, apenas deixa no ar. E no ar, na política, muita coisa ganha corpo. Entre elogios generosos e um enigmático “futuramente a Deus pertence”, o prefeito da capital joga para todos os públicos: os que querem definição e os que preferem a dúvida.
Mas o movimento de Célia não é apenas uma declaração isolada. Ele redesenha, ainda que sutilmente, o tabuleiro local. Ao se aproximar de JHC, ela se distancia do campo político do atual prefeito Luciano Barbosa, que, ao que tudo indica, deve caminhar ao lado de Renan Filho numa eventual disputa estadual ao governo do estado.
E aí entra o elemento mais curioso: para quem acompanha a política arapiraquense há mais tempo, tudo isso tem um certo ar de ‘déjà vu’.
Não é de hoje que Célia e Luciano ocupam palanques opostos. Já foi assim quando Luciano caminhava com Ronaldo Lessa e Célia com Teo Vilela. Repetiu-se quando ele apoiou Ricardo Nezinho, enquanto ela esteve com Severino Pessoa. E, mais recentemente, quando Luciano seguiu com Luiz Inácio Lula da Silva e Célia optou por Jair Bolsonaro.
Agora, o roteiro se repete, com novos personagens, mas com a mesma essência. Um “repeteco”, como diriam os mais atentos.
E como toda boa cena política contemporânea, o episódio veio acompanhado de vídeo, abraços, sorrisos e uma frase que não passou despercebida: JHC dando “boas-vindas de volta” a Célia.
Volta para onde? É aí que mora o mistério. Porque, na política, o que parece simples raramente é. Estaria Célia se preparando para uma disputa proporcional? Uma vaga na Assembleia? Na Câmara Federal? Ou seu nome começa a circular em conversas mais amplas, talvez compondo uma chapa majoritária que oficialmente ainda não existe, mas que já habita os bastidores?
Enquanto isso, o eleitor observa, os aliados calculam e os adversários anotam.