
Na política, toda ruptura tem um preço. E, em Arapiraca, o rompimento entre o prefeito Luciano Barbosa e o grupo dos Nezinhos pode ter custado algo maior do que uma aliança: pode ter custado a chance de se tornar o político mais influente de Alagoas.
Até pouco tempo, o cenário parecia desenhado para a consolidação de um projeto de poder raro no estado. Prefeito da segunda maior cidade alagoana, Luciano já havia demonstrado força ao eleger, em 2022, o filho Daniel Barbosa para a Câmara Federal — uma vitória que ampliou seu raio de influência para além do agreste. A reeleição, neste ano, é tratada por aliados como movimento natural.
Mais do que isso: Luciano poderia se transformar em governador de Alagoas e ter dois filhos deputados — um federal e outro estadual. Com a candidatura do advogado Lucas Barbosa à Assembleia Legislativa, nas eleições de outubro próximo, o prefeito pavimentaria a chamada “tríplice coroa” política: o comando do Estado nas próprias mãos e a presença simultânea dos dois herdeiros nas esferas federal e estadual. Um arranjo que o colocaria no topo da influência política alagoana.
Mas foi justamente essa decisão que detonou o rompimento com o antigo aliado e escudeiro político, o deputado estadual Ricardo Nezinho. Sem o apoio da Prefeitura, Ricardo tentará a reeleição por conta própria. E o embate ganhou contornos ainda mais sensíveis porque envolve também a vice-prefeita Ruth Nezinho, irmã do parlamentar e hoje peça central nesse novo tabuleiro.
O desgaste não é apenas local. No plano estadual, o cenário segue indefinido. Nos bastidores, comenta-se sobre um possível entendimento entre o grupo de Renan Calheiros e o prefeito de Maceió, JHC, para construção de um nome de consenso ao governo — repetindo a fórmula que levou Paulo Dantas ao comando do Estado em circunstâncias semelhantes.
Se esse roteiro avançar, Luciano surgiria naturalmente entre os nomes competitivos. Bem avaliado em Arapiraca, com capilaridade regional e estrutura consolidada, teria densidade política para disputar o governo ou, ao menos, influenciar decisivamente sua escolha.
Mas aí reside o paradoxo: para disputar o Palácio, precisaria renunciar à Prefeitura — entregando o comando da segunda maior cidade do estado justamente à vice, irmã de seu agora adversário político.
O preço do rompimento, portanto, pode não estar apenas na disputa pela Assembleia. Pode estar na perda de controle estratégico sobre Arapiraca no momento mais decisivo de sua trajetória. Sem a ruptura, talvez o caminho até o topo estivesse menos turbulento. Com ela, cada passo passa a ser calculado sob o risco de fortalecer o grupo que hoje ocupa o outro lado da trincheira.
Na política, alianças constroem impérios. Mas rupturas, muitas vezes, definem seus limites.