
Em Brasília, onde as conversas de bastidores valem mais que os discursos oficiais, uma reunião entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente da Câmara, Hugo Motta, gerou um clima de otimismo. Disseram que o encontro foi “produtivo” e que governo e Congresso voltaram a se entender. O motivo? Resolver o impasse em torno da votação do IOF — mas, como quase sempre, o que está em jogo vai muito além dos interesses da população.
A essa altura, ninguém mais se espanta. A discussão não gira em torno da eficiência tributária ou do impacto da medida na vida do cidadão comum. O embate não é sobre justiça fiscal, tampouco sobre aliviar o peso que os mais pobres carregam nas costas em um sistema regressivo. O centro da questão, como quase sempre, é outro: emendas, cargos, influência — a moeda corrente da política miúda que se traveste de grandeza nas coletivas de imprensa.
É curioso observar como, quando o interesse é coletivo, o Congresso se mostra disperso. Mas quando o tema envolve a liberação de verbas individuais, a produtividade explode, e os diálogos são, de repente, retomados com entusiasmo. O impasse, veja bem, não era técnico, era financeiro — mas não para os cofres da União, e sim para os bolsos eleitorais dos deputados.
Os cidadãos, esses sim, continuam esperando um outro tipo de conversa. Uma que trate da reforma tributária que desonere o pão e taxe o iate. Uma que discuta como tornar o Estado mais eficiente, menos burocrático e mais justo. Mas esses diálogos, infelizmente, não costumam ter a mesma “produtividade”.
Enquanto isso, o ministro se equilibra entre tecnicalidades e barganhas, tentando manter a governabilidade num Congresso em que cada voto parece vir com recibo. E o presidente da Câmara, ao anunciar a “retomada do diálogo”, parece dizer mais sobre o silêncio que vinha antes — um silêncio que, na prática, só será rompido quando a conta das emendas for paga.
Brasília fala muito. Mas o que se diz entre quatro paredes vale mais do que qualquer pronunciamento. E o povo, que deveria ser o interlocutor principal, continua ouvindo apenas os ecos de um jogo que parece sempre jogado entre os mesmos — e em causa própria.